Receita para matar hospitais, por Marcelo Caixeta - médico psiquiatra
Jornal Diário da Manhã de 02/01/2007

Depois de 20 anos ajudando voluntariamente a diretoria de um hospital filantrópico que atende crianças deficientes, venho a público dizer, para felicidade de muitos, que essa instituição começa a fazer água: há dois meses ficamos sem uma enfermeira universitária, e há um mês ficamos sem um médico.

Não conseguimos mais repô-los, pois só neste mês nossas despesas foram de vinte e cinco mil para uma receita de vinte mil. O governo exige que dobremos nossa área hospitalar, sendo que não temos nem dinheiro para consertar e manter o prédio atual. Salários, comida, remédio, exigências do governo, tudo isso cresce sem parar; só não cresce o dinheiro que recebemos do governo federal, via SUS, sem aumento há aproximadamente 12 anos. Para não precisar falar mais nada, um médico psiquiatra, especialista que teve de passar em um vestibular infernal, estudar seis anos de Medicina e mais três de Psiquiatria, ganha dois reais e setenta e cinco centavos por dia para "cuidar" de um paciente. E as regras feitas em gabinetes refrigerados em Brasília exigem que eu tenha um médico 24 horas no hospital - pagar como? Esses dias, fui até um deputado federal reclamar justamente disso, dessas leis asfixiantes feitas em Brasília para matar hospitais e dar emprego para muitas categorias, leis das quais eles poderiam participar, ou tentar anular, e ele simplesmente deixou-me falando sozinho (acho que por que eu estava mal vestido, num Fiat Uno 92, sapato velho e barba mal feita ). Outro dia, quando falei para uma autoridade da Saúde que os hospitais estavam fechando, os doentes mentais ficando na rua, ele deu de ombros e disse que não poderia fazer nada - eles absolutamente não se importam com o doente mental, pois este não aparece na TV como o s doentes queimados, não reivindica como os portadores de HIV, não vota como os transplantados e nem tem dinheiro como os acometidos por gota. Só nestes últimos três anos
foram fechados os hospitais psiquiátricos filantrópicos de Jataí, Inhumas, Palmelo, Clínica Espíria de Repouso, em Goiânia, redução pela metade dos leitos de Anápolis e do Batuíra em Goiânia. Este último está fazendo sucessivos apelos públicos em Goiânia, no último mês, para não ter de fechar as portas. Enquanto isso, o Pronto-Socorro Psiquiátrico do governo padece de sucessivas superlotações, dificuldades para conseguir profissionais, espera de muitas horas, atendimento difícil e muitos pacientes que têm de voltar para casa, psicóticos, sem poderem ser internados (conheço uma enfermeira do interior que teve de transformar sua casa em um mini-hospital psiquiátrico para acolher os doentes refugados pela falta de vagas do sistema).

Como disse, autoridades e mesmo parentes não se importam com a morte dos doentes, pois, para eles,"doente mental enche o saco mesmo". Infelizmente, muitas famílias, pobres e ricas, inconscientemente, acabam orcendo para que o doente morra, para ficarem livres de um problema que não é igual ao câncer, que não incomoda o utro: a maioria das doenças mentais incomoda, e muito, os outros, a ponto de todos ficarem com raiva do oente, acharem que ele está aproveitando, manipulando, fazendo chantagem etc. E quando morrem de suicídio ou entrando debaixo de ônibus, afogando-se nos rios, como andarilhos na beira de estradas, a mil por hora entro de carros ou motos, de cirrose ou com o nariz enterrado no pó branco, ninguém fala que a causa da morte foi a doença mental; doença mental não sangra, não aparece em estatísticas. Como disse no início, mesmo ratando de crianças doentes, pobres, deficientes, há muitos que querem nosso fechamento: em primeiro lugar estão aqueles que mamam nas tetas governamentais e têmódio das instituições privadas, sobretudo daquelas que funcionam. Engraçado é que, justamente estes que querem fechar hospitais, recentemente foram à mídia denunciar, por exemplo, a Prefeitura de Goiânia por"sucatear" as instituições psiquiátricas (há algum tempo quiseram dar uma de "bonzinhos", fechando"manicômios horríveis que só visam lucro" e agora, em apuros, vendo que os doentes não têm vagas e estão nas ruas, querem, de novo, enganar a população posando de "salvadores e defensores dos doentes mentais").

 

Estudo do IPEA analisa a pobreza no Brasil

"O Brasil não é um país pobre, mas um país extremamente injusto e desigual, com muitos pobres", é o que diz o estudo "A Estabilidade Inaceitável: Desigualdade e Pobreza no Brasil" do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

Segundo dados da pesquisa, em 1999 havia 14,5% da população brasileira vivendo em famílias com renda inferior à linha de indigência e 34,1%, com renda inferior à linha da pobreza. Isso corresponde a 22 e 53 milhões de pessoas respectivamente. Comparado ao ano anterior, houve um pequeno aumento: em 1998 havia 21,7 milhões de indigentes e 50,3 milhões de pobres.

No entanto, se analisarmos a renda per capita do Brasil com a de outros países, não podemos considerá-lo um país pobre: a comparação internacional quanto a renda per capita coloca o Brasil entre o terço mais rico dos países do mundo. Apenas 36% dos países do mundo possuem renda per capita superior a do Brasil mas o seu grau de pobreza é significativamente superior à média dos países com renda per capita similar à brasileira. A população pobre do Brasil representa 30% de sua população total, enquanto em países com renda per capita similares esse número é de 10%. De acordo com essa comparação, o Brasil deveria ter apenas 8% de sua população na linha da pobreza.

Esses dados demonstram que a origem da pobreza do Brasil não está na falta de recursos mas na má distribuição dos recursos existentes. Poucos detêm muito e muitos não detêm quase nada. A renda média dos 10% mais ricos do país é 28 vezes maior do que a renda média dos 40% mais pobres. Nos EUA, por exemplo, a proporção é de 5 vezes; na Argentina, 10 vezes e na Colômbia, 15 vezes.

A conclusão é de que o enorme grau de desigualdade na distribuição de renda, praticamente estável nas duas últimas décadas, constitui-se como o principal determinante da pobreza no país. As políticas de combate à pobreza adotadas pelo Governo não são eficazes na medida em que apenas visam o crescimento econômico. Uma estratégia adequada seria unir políticas de estímulo ao crescimento econômico, ao crescimento da renda per capita e à melhor distribuição da renda.

Fonte: Estudo "A Estabilidade Inaceitável: Desigualdade e Pobreza no Brasil" - Barros, Ricardo Paes de; Henriques, Ricardo; Mendonça, Rosane - IPEA - 2001